MARCIO MARIANNO

 
 

©2020

 

Marcio Marianno
Nasceu em 1978 em Santo André município de São Paulo, é artista visual e educador profissão que ele compartilha com alguns dos artistas da exposição.
Sua pintura, de caráter naturalista, tem em comum com outros artistas desse elenco narrativas que consagram o protagonismo da pessoa negra a partir de sua própria imagem, em autorretratos que criam ficções, projeções poéticas a partir das quais, o particular se arroja à condição de universal. Assim como Luiz 83 sua formação não é devedora dos saberes derivados do ensino artístico formal, mas partilha e participa da tradição de pintores negros que, desde pelo menos o sec. XIX, realizaram projetos de consistente cabedal a partir de premissas não convencionais e não raro, adversas. A pintura de Marianno denota o gosto pelo uso da tinta a óleo, material exigente que ele investiga em suportes diversos nas suas potencialidades com a paciência de profissional dedicado.

Claudinei Roberto da Silva curador.

 

 

Com origem no universo pop dos quadrinhos e animações, Marcio Marianno, que também já enveredou pela linguagem do grafite, agora se encontra imerso na pintura óleo.
Seu trabalho, resultado de uma intensa pesquisa sobre a linguagem pictórica, busca afirmar o sujeito artista-homem-negro e sua posição na sociedade contemporânea, bem como discutir sua herança histórica. O que se percebe em suas pinturas é uma atmosfera de solidão, e um mergulho psicológico. A partir de sua própria imagem, Marianno encarna, como numa performance, um personagem que busca ao mesmo tempo seu lugar na contemporaneidade e sua ancestralidade.
Sua série de auto retratos, quase todos desprovidos de face, se constituem de imagens obscuras e carregadas de memória, mas também trazem referências imagéticas e cores da pop art, as quais fazem parte de seu percurso como ilustrador, animador e editor de vídeos, além de skatista. Todos os trabalhos dizem respeito ao auto retrato, mesmo quando a imagem é um objeto, ou uma paisagem, todos são elementos potentes da memória e história do artista.
Produzida em camadas, as pinturas de Marianno discutem os fazeres tradicionais aliados à uma narrativa atual e íntima e enunciam um processo no qual em cada etapa o artista se torna um desbravador de si mesmo.

Gina Dinucci artista.

 

 

Meu percurso

Quando criança ficava observando uma cópia da Mona Lisa, uma pintura pequena de natureza morta de um autor desconhecido e uma fo- topintura da minha avó materna. Nessa época eu gostava de desenhar de observação à mesa do café da manhã, desenhava personagens de desenhos animados, para depois recortá-los e brincar junto com os outros brinquedos que eu tinha. Na adolescência, comecei a andar de skate e depois de um tempo conheci alguns grafiteiros, e me arrisquei no grafite, comecei a buscar meu traço e estilo, experimentando algumas técnicas sob a influência de amigos que também desenhavam. Comecei a desenhar pessoas pretas de forma estilizada. Nessa época eu já emprestava minha imagem como referência para os desenhos, pois não me reconhecia nas representações que via até então. Mas não durei muito tempo como grafiteiro.
Uma vez fui questionado sobre o motivo pelo qual eu desenhava tantas pessoas pretas, e eu não soube responder a tal questão naquele momento.
Trabalhei com edição e pós produção de vídeos e animações. Voltei ao grafite novamente por pouco tempo, pois percebi que não me encaixava nas regras e repetições que a linguagem pedia.
Em 2009 iniciei minha carreira como impressor fine art, estudei muito sobre pré impressão e conservação de papéis de algodão, atendi e conversei com vários artistas interessantes, que me instigavam a produzir. Também percebi o lugar que como homem preto ocupo na sociedade, e qual o lugar esta sociedade havia me destinado e eu não ocupava, coisas que me eram despercebidas até então. Cada susto disfarçado ou não que um cliente tomava ao descobrir que o Marcio printer era um homem preto, vinha junto com o olhar que per- guntava como eu tinha conseguido chegar naquele lugar. E alguns clientes chegam a me interrogar sobre qual foi meu “mérito/caminho” para estar alí como responsável pelo controle de cor e processos museológicos de manuseio de suas impressões fine art. O bairro de Pinheiros onde se localizava o estúdio de fine art, a cada restaurante que eu entrava me mostrava através de olhares intrigados, que meu lugar não era estar ali na posição de consumidor, pois 95% dos consumidores nestes lugares não se pareciam comigo. Junto com esse entendimento de quem eu sou, o meu interesse por pintura, principalmente por pinturas a óleo foi crescendo e também as descobertas sociais, históricas e ancestrais.
Em 2012 fui apresentado ao trabalho de um pintor Mauricio Parra, com quem tive aulas de pintura a óleo em seu ateliê, na quais aprendi a técnica indireta da pintura a óleo e sua alquimia.
Com o decorrer dos estudos e pesquisas sobre pintores e estilos, novamente senti falta de representações nesse suporte clássico de figuras que se parecessem comigo. As representações que eu encontrava, na sua maioria, não haviam sido feitas por pessoas pretas.
Onde estavam os pintores pretos?
Recentemente fui questionado novamente, por um colecionador inglês, sobre qual é o motivo de eu pintar tantas pessoas pretas? E por que sempre autorretrato? Por que sempre tão político?
Hoje eu sei responder o porquê de eu emprestar o meu corpo como referência em ações performáticas, questionando e mostrando dilemas do dia a dia de pessoas pretas, pobres e periféricas, a beleza do corpo preto e a importância de nossa ancestralidade usando a técnica clássica e eurocêntrica da pintura a óleo.
Colocar pessoas pretas como protagonistas de pinturas, e ser um artista e preto, é por si só um ato político!

Marcio Marianno.